quarta-feira, dezembro 20, 2006

A HOMOSSEXUALIDADE. Uma questão científica e religiosa

Ciência significa conhecimento. Mas a evolução dos conceitos transportou-a para um tipo de conhecimento: o conhecimento científico, que procura hipóteses universais para justificar os factos observados, que é sistematizado e experimental, em permanente alteração e refutação. O conhecimento científico não é perfeito porque não é acabado; tal como a verdade, a ciência é também circunstancial; todo o conceito científico é uma evolução permanente.

Existe no ser humano um tendência inesgotável para a busca da verdade, muitas vezes caindo numa espécie de fundamentalismo da verdade. Mas, de facto, a vida é uma fonte inesgotável de conhecimento. E ainda bem, porque caso contrário não haveria motivos para viver interessado.

A homossexualidade, tal como a loucura, foi um conceito que evoluiu e se transformou ao longo da história: na antiguidade clássica, o louco era divino; na idade média era herege, bruxo e queimado vivo por isso; no século XIX era criminoso, delinquente e preso por isso; hoje em dia é tratado.

Não quero aqui demonstrar mais nenhuma comparação que esta entre os dois termos, porque o homossexual não é necessariamente louco ou doente. Muito pelo contrário: se fosse uma patologia não tinha perdurado até hoje porque seria irradicado pela selecção natural.

O investigador sobre sexualidade mundialmente conhecido, Dr. Alfred Kinsey, concluiu a partir das suas pesquisas que quase ninguém é exclusivamente hetero ou homossexual e que a maior parte das pessoas sentem-se atraídas, pelo menos uma vez durante as suas vidas, por pessoas do mesmo sexo.Existem pessoas de orientação homossexual e bissexual em todo o lado. Simplesmente, a maior parte das vezes, não consegues distinguir quem é ou não é. Mas ninguém sabe exactamente o que determina ou desencadeia os diferentes tipos de orientação na nossa expressão sexual. Muitos estudiosos pensam que é um produto complexo da genética, da biologia e de condicionantes psicossociais.De acordo com o psiquiatra Dr. Richard Pillard, a homo e bissexualidade existem em praticamente todas as espécies de animais. A homossexualidade faz tanto parte da natureza como a heterossexualidade. De acordo com a Associação Americana de Psiquiatria (AAP), não se pode escolher a orientação sexual.

Não sendo uma doença, é por outro lado, um tema tabu mesmo para a ciência. E porquê? Porque, infelizmente o preconceito social e sexual tem a força de institucionalizar as sociedades, e a ciência não escapa à sua fúria.

Veja-se o caso de Bruce Bagenihl, que quando publicou o trabalho “ animal homossexuality and natural diversity” encontrou resistências enormes da academia das ciências; Em 1987, um biólogo americano após descrever a homossexualidade das borboletas de Marrocos, afirmou haver decadência moral da parte dos ditos insectos.

No entanto, a partir da década de 90 do século XX, a vontade de conhecer superou de alguma forma o preconceito em relação à questão. Foi em 1991 que Simon leVay publica um trabalho em que conclui que as células do hipotálamo ( região do cérebro responsável pelas emoções e sentimento sexual) dos homossexuais têm um tamanho menor que as dos heterossexuais, havendo assim, uma relação estreita entre a orientação sexual e afectiva e a conformação celular do hipotálamo. Mesmo não comprovando uma teoria genética, existe a hipótese da homossexualidade se inata.

Passados dois anos, em 1993, foi publicado na revista Science, uma pesquisa coordenada por Dean Hammer ( instituto nacional do cancro dos EUA), que mostrou que entre os familiares paternos de 76 homens homossexuais havia 2% de homossexuais, percentagem que subia para 7.5% quando se tratava do lado materno, levantando a hipótese de uma ligação genética do lado materno relacionado com o cromossoma X.

Apesar de todos os estudos realizados existem muitas dúvidas ainda sobre a influência genética na orientação sexual do ser humano.

No entanto, o já citado livro de Bruce Bagenihl demonstra que as relações homossexuais na natureza não são confusão de instinto, aberração ou doença: a maioria dos animais homossexuais são assim pelo simples facto de o serem.

Em 1998 foi encontrado nos Alpes italianos, um corpo congelado com 14 mil anos, chefe de uma tribo. O guerreiro foi estudado e nele foram encontrados vestígios de esperma diferentes do seu, com características sanguíneas diferentes, no seu reto. Esta descoberta faz pensar que a homossexualidade humana era natural antes do aparecimento da cultura judaico-cristã.

Mas a descoberta mais marcante a este nível foi feita por acaso ( como muito do conhecimento científico o foi), quando estudiosos brasileiros ao estudarem os genes que davam as características das antenas de drosófilas, encontraram uma prole composta exclusivamente de homossexuais.


No entanto, a questão da homossexualidade não é tão simples como pode parecer, até tão somente pelo facto de gerar uma grande discussão tanto no meio científico como no seio da religião.


Na mensagem de Sua Santidade Bento XVI para a celebração do dia mundial da Paz é referido como elemento de primária importância para a Paz, “a igualdade essencial entre as pessoas humanas” que nasce da dignidade comum a todas, e a necessidade de uma ecologia humana que favoreça o crescimento da árvore da Paz, repudiando o ódio, o preconceito e a violência.

O Vaticano em muitos textos fala da moralidade dos afectos, sendo que esses são “componentes naturais da psicologia humana” e que são moralmente boas “ quando contribuem para uma acção boa”, devendo sempre o ser humano seguir a sua consciência moral ( a voz de Deus).

No entanto, numa instrução papal de 2000, sobre os critérios de discernimento vocacional acerca das pessoas com tendências homossexuais e da sua admissão ao seminário e às ordens sacras, põem em causa a admissão de pessoas com este tipo de orientação sexual.

A Igreja Católica e o seu catecismo distinguem actos de tendências homossexuais. Os actos serão pecados graves, imorais em contrários lei natural; as tendências, embora respeitadas, não podem ser admitidas “ se profundamente radicadas” ou apoiantes da chamada cultura gay.

Para a Igreja Católica, os homossexuais estão numa situação grave que cria obstáculos ao “ correcto relacionamento entre homens e mulheres”.

No caso de se tratarem de tendências transitórias nascidas de “ um problema, como a adolescência ainda não completa”, tem de ser superadas três anos antes da ordenação diaconal.

Esta instrução foi aprovada por Bento XVI a 31 de Agosto de 2005. O santo Padre, no entanto, pensa segundo o catecismo, que os homossexuais “ não escolhem a sua condição”, sendo que a condição é uma provação e que “ acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza”, para não haver “qualquer sinal de discriminação injusta”, apesar da sexualidade humana ser um bem se “ realizada entre homem e mulher”.




Mais uma vez, não me poderei imiscuir de dar algum apontamento pessoal à questão posta em cena.

Devido à cultura cristã que nos rege é muito difícil dela nos separarmos. Ela está presente em toda a nossa vida quer queiramos quer não. No entanto, o facto de ela nos reger não é sinal que esteja certa em toda a sua dimensão.

E no caso da homossexualidade parece ser o caso. Neste tema não só a igreja não acompanha a evolução científica no que respeita às leis naturais, como também parece ter um discurso confuso e contraditório em relação ao mesmo.

Por um lado, a ciência vem verificando a naturalidade da homossexualidade e a Igreja não a capta, vendo-a como um problema ligada a uma adolescência atrasada ou como uma tendência portadora de imoralidade caso seja praticada. Por outro lado, a Igreja proclama a paz através do fim do preconceito, quando é a primeira a ser preconceituosa em relação à questão.

De facto, a homossexualidade sempre existiu, mais assumida numas épocas, mais censurada noutras. A realidade é que existe, não nasce de um preparado químico, é natural e tem de ser respeitada.

Em Portugal começa-se a falar de casamento entre homossexuais e a possibilidade de adopção por casais homossexuais. Será um problema? não me parece. Como tudo o que começa evolui, as mentalidades evoluem também obrigatoriamente, tal como os conceitos. O conceito de família actual deixou já de ser o da família matriarcal e patriarcal para ser a união dos afectos, o que em nada se opõe ao conceito de homossexualidade como orientação afectiva e sexual. Um casal de pessoas afectivas podem dar afecto sem serem contaminadas por rótulos sexistas. Independentemente do sexo ou da sexualidade são bons pais aqueles que dão afecto.
No que toca ao casamento, a lei prevê que este é para pessoas de sexo diferente para fins de construção de família. Ora o casamento foi também alterado, tornando-se hoje um mero negócio jurídico para benefícios fiscais com a meta do divórcio no horizonte. Quem defende ainda o casamento e a família, deveria defender os afectos, e a possibilidade de pessoas com uma orientação sexual diferente poderem a eles aceder sem o preconceito ultrapassado da discriminação.

A lição tirada da cultura Cristã, é que devemos respeitar o próximo e que o ser humano apesar de todas as diferenças que acarreta é sempre pessoa humana, com a mesma dignidade e com os mesmo direitos.

Um mundo sem afectos é um mundo sem respeito. Em qual queremos viver?

1 comentário:

Beno disse...

Brilhante.